Jovens à deriva na internet (JC – Opinião – 26/04/2017)

Jovens à deriva na internet (JC – Opinião – 26/04/2017)

Já é uma realidade hoje que as crianças e os adolescentes têm um acesso muito amplo à internet. Dada a popularização dos dispositivos móveis, a dinâmica da família contemporânea e a ingênua ideia de que o mundo virtual não se confunde com o mundo real acabamos presenciando alguns fenômenos ligados à violência na rede. O último, bem noticiado, é o “jogo” da Baleia Azul, que não deveria ser, nem de perto, um problema para os jovens.

Há desafios: os do jogo, que culminam numa instigação ao suicídio aos que dele participam, e os da sociedade, que mais uma vez enfrenta na pele os efeitos decorrentes dessa permissividade quase irrestrita ao acesso dos jovens à internet. Se hoje é possível dizer que houve um ganho social ao ampliar esse acesso, por outro é possível constatar que a falta de informação e educação adequada trouxe à tona um outro problema.

É preciso entender, antes de mais nada, que crianças e adolescentes estão ainda em desenvolvimento com sua personalidade. Através dos estudos de Stanley Hall, por exemplo, percebeu-se que o conflito é inevitável no adolescente, é um corpo que passa por muitas transformações em função da puberdade. Há uma necessidade de pertencimento em grupo e, como contraponto, a realidade de que celulares são mais presentes que os diálogos com os pais – e dificilmente há controle sobre o que se faz nesses aparelhos.

O jogo consegue traduzir as angústias vivenciadas pelos jovens que dele participam: os desafios são propostos à autoestima, num grupo cuja relação é atravessa por ausência de relação, por quebras, por fraturas. Torna-se escravo da perversão do outro. Enquanto os pais são ausentes de um lado, o Estado é omisso de outro: não há ferramentas preventivas e os instrumentos coercitivos mostram-se ineficazes. Há cometimento de crime de instigação ao suicídio, homicídio, ameaça, mas paira a certeza da impunidade.

A questão não é discutir se a internet é boa ou má. Ela é e está acontecendo. Aos pais, precisa maior diálogo com seus filhos, acompanhar como estão sendo educados pelos conteúdos nas redes sociais – acesso que, em tese, nem deveria acontecer. Às escolas, trabalhar essas temáticas do suicídio e da vida, trazer a internet para as discussões, desenvolver projetos de combate ao bullying, comunicar maus tratos à autoridade competente (como reza o art. 245 do ECA). E às autoridades, propor mecanismos de inteligência que identifique esses grupos e fazer parcerias com os provedores para prevenir esse tipo de prática.

(Artigo publicado originalmente no suplemento de Opinião no Jornal do Commercio, em 26 de abril de 2017)

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1 Comentário

  • Postado 27 de Abril de 2017

    Alcioli Santos

    Jovem à deriva na internet. Quando os pais não cuida, alguém toma conta. Como diz Leonardo Boff: “Quem ama cuida”. Excelente texto amigo. Parabéns!

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