Por que precisamos falar sobre evasão de privacidade?

Por que precisamos falar sobre evasão de privacidade?

Centro dos debates hoje que envolvem governança na internet e direitos fundamentais dos usuários na rede, a privacidade tornou-se eixo fundamental no fluxo de comunicayção e participação na internet. Invasão de privacidade é quase uma palavra única. Não é raro encontrar um painel de discussão sobre internet em que algum painelista trate sobre o tema. Em contrapartida, pouco se fala sobre a evasão da privacidade, uma prática recorrente nas redes sociais.

Para entender mais sobre a diferença entre as duas expressões, é importante recorrer à etimologia das palavras. Invadir, do latim invado, significa ir arrebatadamente contra, ao passo que evasão, do latim evado, quer dizer sair, atirar-se pra fora. Nota-se, desde logo, a voluntariedade como particularidade nas expressões: enquanto a primeira é algo contrário à ordem, já que em raros casos alguém quer ser invadido, a segunda dispõe um comportamento autônomo, de escolha.

Parece uma contradição, claro, em especial porque é bastante comum vermos associações e grupos defenderem a privacidade dos usuários na rede, mas em tempos de sociedade do espetáculo, a discussão não é suficiente frente ao apego emocional da vaidade, ao ímpeto que algumas pessoas ou familiares usam para poder tornar públicas as suas conquistas e ganhos, ofuscando a importância do sigilo e do próprio direito à privacidade. A exposição encontra uma espécie de réquiem para os sonhos nas redes sociais.

As consequências dessa evasão são as mais variadas. No campo da mídia, por exemplo, são vários os casos de criminosos que utilizaram-se de informações publicadas nos perfis públicos das vítimas para poder cometer determinados crimes. Nem mesmo Eugene Kaspersky, CEO da empresa de segurança homônima, ficou fora disso: dados publicados no perfil do filho facilitaram o sequestro dele. Neste outro caso, aqui no Brasil, o sequestrador usou o que era publicado no perfil da vítima para poder sequestrá-lo.

No Facebook mostra tudo. Foi coisa de [planejei em] 10 dias, no máximo. Se vocês puxarem lá vão ver como mostra tudo da vida pessoal. Mostra até dentro da casa deles, diz o sequestrador que foi preso em Brusque na terça, quando comprava um carro para fugir. Ele ainda afima ter descoberto a escola do menino e o trabalho do pai pela rede social.

A facilidade para saber de informações da vida “real” de alguém inspirou, anos atrás, a criação de um site chamado Please Rob Me, que utilizava de informações do Foursquare e do Twitter para dizer, baseado no histórico de check in, se determinado usuário estava em casa ou não. Tratava-se de um bot que conseguia essa informação, então já dá para imaginar o que pode alguém que queira descobrir intencionalmente outros dados de alguém.

As recomendações dos especialistas é que utilize as configurações de privacidade das suas redes sociais para que as postagens sejam visíveis apenas para os seus amigos. E que, sobretudo, tenha-se a cautela ao adicionar alguém como amigo numa rede social. Ainda assim, mostra-se prudente publicar fotos dos locais onde mora, de placas de automóveis, comentar sobre viagens futuras, expor fardamento dos filhos e sobre os horários de entrada e saída da escola. Certa vez, numa palestra, um pai fez uma metáfora muito válida: antes, as pessoas não abriam a porta para qualquer pessoa, mas com a internet as pessoas abrem a “janela” para qualquer um.

A imagem que ilustra a postagem é de uma vanitas, expressão artística que traduz a nossa relação de conflito com a morte. Dada a inevitabilidade da morte (e com a consciência que temos disso), quais os valores nos pautam para que tenhamos uma vida bem sucedida? As vanitas colocam a morte e vida em movimentos semelhantes, pois falar de um é também sobre o outro, e nisso nos questionamos sobre as tentações que nos iludem, sendo a vaidade uma delas.

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