Pós-verdade: o conceito que ajuda entender o caso da Escola Santa Emília

Pós-verdade: o conceito que ajuda entender o caso da Escola Santa Emília

A palavra de 2016, segundo o Dicionário Oxford, foi pós-verdade.  Segundo a instituição britânica, trata-se de um adjetivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais. Não por menos, os boatos e notícias falsas nas redes sociais ajudaram a impulsionar a construção desse neologismo, o que não foi diferente com o caso recente envolvendo a Escola Santa Emília.

Aconteceu o seguinte: um professor de história ornamentou a sala de aula com emblemas nazistas com o intuito específico de trabalhar o conteúdo de regimes totalitários. Vestiu-se, inclusive, de führer. Ministrou a aula, os alunos aprovaram a dinamicidade e a escola divulgou nas redes sociais como forma de enaltecer o trabalho do professor. Resultado: em menos de 2 horas, milhares de compartilhamentos, reações negativas, acusações de que a escola cometeu o crime de divulgação de nazismo (veja artigo que escrevi sobre isso aqui).

Houve um fato objetivo, qual seja, o de trabalhar os regimes nazifascistas, de forma didática em um ambiente escolar, cuja liberdade de cátedra é garantida ao professor (ainda), mas as imagens de exposição dos símbolos do Terceiro Rich causaram um desconforto, um incômodo, observado à primeira vista. O que se deve levar em conta é que a própria estrutura de montagem de conteúdo nas redes sociais dá uma preferência à imagem e a maioria das pessoas limita-se nisso. Pelos comentários negativos, poucos puderam depreender que tratava-se de exposição dos símbolos para fins meramente didáticos. Embora se tenha capacidade de ser um agente ativo na internet, o grande público apenas recepciona conteúdo, compartilha, repete discursos.

O que a pós-verdade nos mostra é que qualquer tipo de crença (por mais absurda que seja) ou ideia que se tenha pode ser corroborada com algum dado ou informação de que se dispõe, ainda que não seja verdadeiro. Foi inspirado no conceito de dissonância cognitiva, muito trabalhado na psicologia por Leon Festinger: a diferença é que naquele o agente busca elementos para confirmar uma verdade que não existe e nesse o indivíduo sofre um conflito entre o que acredita ser verdade e aquilo que sabe ser verdadeiro.

O caso da Escola Santa Emília, assim como muitos outros (tais como o Brexit da Comunidade Europeia e a eleição do Donald Trump) aproxima-se da problemática da pós-verdade, porque o que se mostrou fica numa linha tênue entre o que não aconteceu e uma indiferença com a verdade dos fatos. Maior prova disso é que por mais esclarecimentos que a escola tenha dado, por mais conhecimento que se tenha de que não houve cometimento de ato ilícito, ainda há pessoas colando trechos da lei que criminaliza a divulgação do nazismo apenas para consolidar julgamentos e preferências.

Posts relacionados

2 Comentários

Deixe um comentário